quinta-feira, dezembro 14, 2023

Um milhão de vezes.

Noutros tempos,

Noutras vidas,

Noutros lugares,

Noutras circunstâncias que não nos tivéssemos conhecido,

Viveria a minha vida inteira com um vazio,

Procurando por algo que jamais faria sentido,

Por que mesmo que tu não fosses tu,

E eu não fosse eu,

Eu me apaixonaria por nós

Um milhão de vezes.



quinta-feira, dezembro 07, 2023

11 anos (depois) de ti.

Olá coisa linda:

Envio-te a minha carta de reclamação, porque uma mulhere tem que mandar bir com estes gandins! LOL!

Obrigada pelo seu apoio incondicional:)

Beijocas fofas, godas e quentinhas!

terça-feira, novembro 14, 2023

Era isto o depois.

 E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.

Era disto que falavam as mães quando davam conselhos

ás filhas e diziam: o amor vem depois. Era isto o depois.

Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,

todas as horas do dia e um poema que se dissolve dentro

de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.





quinta-feira, novembro 09, 2023

és meu quando.

 Direi do amor não tudo, mas o quando

- O amor só sei dizer o amor

sentindo

Direi mesmo sabendo repetindo

- O amor se vai no dito

renovando


Eu sinto quando amor se perco o mundo

Se tudo o que eu disser, dizer sorrindo

O amor se dá somando e dividindo

Na sensação de estar multiplicando


O amor é quando o quando é desse jeito

Não há saber da causa só do efeito

Não tendo, desse efeito, seu comando


Te amo em bando - tantos que me sinto

Em menos, não consigo ou me consinto

Pois todos tu resumes: és meu quando.

segunda-feira, novembro 06, 2023

Quando te vi antes do mar.


Este fim de semana parei aqui.

Na foz. 

Onde o rio se perde.

Quando te vi antes do mar.

Quando os teus olhos me guiavam pelos caminhos do teu abraço.

Quando éramos felizes. 

Tão felizes. 

E descontraídos. 

O amor em latência, 

presente na luz do nosso caminho.


sexta-feira, novembro 03, 2023

Quem tem saudades.

 SAUDADES DE CAMÉLIAS

 “Então o que vai ser hoje, menina?”
 Ela sorri, só no mercado é que ela ainda é menina, enquanto a rapariga vai gabando as virtudes da mercadoria, “as rosas nem estão muito caras, e se a menina lhes deitar o pó desta saqueta duram muito mais. E temos umas cravinas lindas…” 
De repente ela pergunta: “Não tem camélias?” 
A rapariga olha para ela espantada: “Camélias, menina? É muito raro haver agora camélias, acho que nem deve ser o tempo delas, e mesmo que fosse, hoje já ninguém compra camélias, a menina sabe como é, há modas para tudo, e hoje o que as pessoas querem é ramos assim muito bem armados, há floristas que até põem uns ananases no meio do arranjo, e umas joaninhas de plástico, eu por acaso nunca ponho, e a menina por que não leva estas cravinas?” 
Ela nem ouve a rapariga, ela está muito longe, daqui a momentos vai encontrar-se com o homem que amou desvairadamente aos 20 anos e que já não vê há mais de trinta, e que por acaso encontrou num café ao lado de casa e com quem combinou um almoço, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
“O meu primeiro namorado dava-me sempre camélias no dia dos meus anos..”, murmura, “eu tinha sempre muito medo que a minha mãe visse, e enfiava-as dentro da pasta do liceu… E elas aguentavam…” A rapariga não parece comover-se com histórias românticas, faz-lhe o ramo das cravinas, recebe o dinheiro, dá-lhe o troco. Mas à laia de consolação sempre lhe vai dizendo que às vezes, de quando em quando, lá vão aparecendo, “ se a senhora quiser, eu aviso quando receber camélias e guardo-as para si. 
A senhora pode ficar descansada.” Ela sorri porque, de um momento para o outro, deixou de ser “menina.” O que se compreende: quem tem saudades de “flores tão antigas”, neste mundo de coisas estranhamente modernas, como ananases e joaninhas de plástico em ramos de flores, não merece outra coisa. 

quinta-feira, novembro 02, 2023

Às vezes Novembro



Às vezes Novembro era mais frio

que todos os meses

e uma sombra grotesca

amarfanhava-me os olhos.

Presas ao meu corpo arrastavam-se

sombras e pombos mortos,

coisas que mais ninguém

gostava de ver.

Às vezes Novembro

era um mês surdo,

e eu fechando os olhos

não ouvia o silêncio,

apenas o rugido trémulo

de uma trovoada cuja chuva

nunca vinha para amenizar-me

o sono e eu não

dormia nunca,

perorava vigil em

sobressalto pelos trovões.




quinta-feira, outubro 26, 2023

Balada para uma Inês morta.

Se nos amassemos

pela manhã

ou na cadência louca

do entardecer,

se embalássemos

num canto de voz rouca

a luz do poente

ainda por nascer.

Se o nosso amor

fosse classificado

como um desses amores

ainda por dizer

ou, se outrossim,

lhe chamássemos

o amor talvez

ainda por fazer,

serias tu Pedro – o Rei

que inda há-de ser

e eu Inês já morta

sem te ter.



quarta-feira, outubro 25, 2023

do lugar vazio que deixaste no meu corpo.

Se me perguntas sobre o mundo

Dir-te-ei das ruas,

de todos os lugares onde passei,

da cor das árvores,

de todos os cheiros da cidade, 

dos lugares perdidos onde amei,

do odor dos frutos que provei.


Mas pergunta-me antes

das dores no peito,

do aperto desusado e imperfeito,

do lugar vazio que deixaste no meu corpo,

do abraço incumprido,

do meu coração desfeito

quinta-feira, outubro 19, 2023

Uma palavra bastava.

 

Às vezes uma palavra bastava para que eu soubesse que virias sempre ao    

meu encontro 

mas depois chegaram imprevistas    

tempestades

que desenharam estranhas perdições

 no mapa dos teus dedos 

e as palavras que ninguém quis

silenciaram a festa do meu corpo

 e cobriram o teu daquele silêncio imóvel

 dos lençóis que se estendem sobre as casas

abandonadas no fim do verão

segunda-feira, outubro 16, 2023

Onde o amor se perde.

Surdo, subterrâneo rio de palavras

me corre lento pelo corpo todo;

amor sem margens onde a lua rompe

e nimba de luar o próprio lodo.


Correr do tempo ou só rumor do frio

onde o amor se perde e a razão de amar

--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,

para onde vais, sem eu poder ficar?



sexta-feira, outubro 13, 2023

À prova de tempo.

Na loucura do tanto, na insensatez do sempre e do nunca. Tudo é intenso, tudo é muito. E a vida, como metáfora de um rio, tudo traz, tudo leva, tudo lava. Menos o amor. O amor é uma verdade à prova do tempo.

quarta-feira, outubro 11, 2023

O segredo.

Não tem segredo nenhum. 
Sempre o soube. 
O teu coração também consegue alimentar todas as almas que com ele se cruzam.


"A abóbora chama-se “Claudinha” e dá para alimentar 3000 pessoas."

"(...) Às sementes juntam-se meses de dedicação a estes legumes, paciência, sabedoria e até amor. A sua mulher acredita que o segredo está nisso mesmo, no carinho do trato que os leva até a batizar os legumes gigantes.(...)"

https://www.contacto.lu/portugal/esta-abobora-gigante-de-730-kg-e-a-maior-de-portugal/2672755.html?utm_medium=Social&utm_campaign=Echobox&utm_source=Facebook&fbclid=IwAR2K4xNS2u2WsZmljLR_wXQsidAElHFC32s_Ta4MFE5cd3UWpEU1ojQZstY#Echobox=1693752667

segunda-feira, outubro 09, 2023

O mito é o nada que é tudo.


O mito é o nada que é tudo. 

O mesmo sol que abre os céus 

(...)

Assim a lenda se escorre

A entrar na realidade,

E a fecundá-la decorre. 

Em baixo, a vida, metade

 De nada, morre.


quarta-feira, outubro 04, 2023

A conta viria.

"(...) Essas prestaram mais atenção no amor dos dois. Repararam, por exemplo, em Dalva e Venâncio comendo broa quente na padaria. Ela queimava a língua, cheia de graça, como se colhesse flores, e ele lhe dava beijos molhados como quem sopra um dedinho queimado de criança. Guardaram as vezes em que eles tomavam chuva juntos e as vezes em que ajeitavam a roupa de baixo um do outro na frente de quem quer que fosse, não davam notícias do entorno. Tudo que era na rua faziam juntos: comprar, consertar, passear, e os afazeres em casa eram brincadeiras de amor. Tão bonito quanto insuportável. Uma antipática felicidade, desumana com a solidão alheia. Quem podia acreditar em um amor daqueles? Para que ninguém nunca, em tempo algum, se atreva a achar que é a vida que inspira os livros baratos, ela, a vida, sempre disposta a nos levar até a morte, expõe, mais cedo ou mais tarde, aos berros, sua avareza: felicidade em demasia é dívida que não se pode pagar. A conta viria.(...) "

terça-feira, outubro 03, 2023

Chorámos o vazio que antecedia os poentes.


Sabes, ainda trago a vastidão azul

dos teus olhos dentro dos meus,

claros como as gotas do orvalho

que me magoam o peito inacessível.


Por que nos separaram como gémeos

imaturos quando mal abríamos

os olhos para as palavras?


Fui para ti a baía, o livro, a nuvem.

Foste para mim rochedo, barco e farol.


Foram chegando as cartas da partida,

marcadas pelo fim desde o princípio.

Foram tantas as coisas interditas,

silenciadas e amarradas nas noites.


Chorámos o vazio que antecedia os poentes

no céu que se abria, transparente, nas nossas mãos.

Tantos silenciosos gritos uniram os dois castelos

onde impacientes encostámos as sombras dos corpos.


Como faunos corríamos desnudos no areal e

dançávamos sem cuidados as voltas das ondas. 

Águas misturavam-se com os olhos que já não

sabíamos meus ou teus, antes da alvorada.


Todos partiram em cinzas, amor, aqueles 

que algemaram aos muros, o nosso tempo.

segunda-feira, outubro 02, 2023

Asas de ouro.

Creio no incrível, nas coisas assombrosas, 

Na ocupação do mundo pelas rosas, 

Creio que o Amor tem asas de ouro. 

Ámen. 



sexta-feira, setembro 22, 2023

O pão da minha fome.

 De ti só quero o cheiro dos lilases

e a sedução das coisas que não dizes

De ti só quero os gestos que não fazes

e a tua voz de sombras e matizes

De ti só quero o riso que não ouço

quando não digo os versos que compus

De ti só quero a veia do pescoço

vampira que já sou da tua luz

De ti só quero as rosas amarelas

que há nos teus olhos cor das ventanias

De ti só quero um sopro nas janelas

da casa abandonada dos meus dias

De ti só quero o eco do teu nome

e um gosto que não sei de mar e mel

De ti só quero o pão da minha fome

mendiga que já sou da tua pele.


quarta-feira, setembro 20, 2023

E eu sei que nunca mais saltarei.

Sei que nunca mais encontrarei coisa nenhuma nem ninguém que me inspire paixão.

Sabes?

Pôr-se uma pessoa a amar alguém não é tarefa fácil.

É preciso ter uma energia, uma generosidade ...

É preciso uma cegueira ...

Há até um momento, logo no princípio, em que se tem de saltar por cima de um precipício; quem reflete não salta.

E eu sei que nunca mais saltarei.

terça-feira, setembro 19, 2023

Chega a noite vazia de sentidos.

 Certas mulheres são pequeninas aves. Parecem ter feito

para sempre ninho num beiral ou na copa farta de árvores

de folha perene. Leves como o ar, atam-se às suas origens

para não partirem. Se se ausentam, é quando estão certas

de terem instruído as crias a voar sozinhas. Olham sempre

para trás. Em voos cada vez mais longos. Amiúde voltam

como se não se tivessem ausentado. A um canto quente

do ninho, acariciam a plumagem como se lambessem

feridas. Quando pensam estar sós, levantam uma das asas

e adormecem ali como se fossem embalo. Noite. Nunca

se sabe se voltam a partir. Não há estrelas que anunciem,

mas os luares convidam as aves tristes para irem ao seu

encontro. Numa manhã qualquer, pequenos pássaros dão

pela sua falta. Agitam-se e emitem murmúrios como nunca.

Os rumores da ausência. Quem dera que quem parte

os tivesse escutado antes. São mulheres aladas

que não voltam, para quem a presença se retirara há muito.

Chega a noite vazia de sentidos.

sexta-feira, setembro 15, 2023

This is what I miss…

This is what I miss… not something that’s gone, but something that will never happen.

quinta-feira, setembro 14, 2023

Bolso.

Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias vivas.

Memórias vivas são aquelas que continuam presentes no corpo.

Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se, dança... 


quarta-feira, setembro 13, 2023

O meu nome é o teu olhar.

Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,

essas palavras que não ficam arrumadas com decência

na literatura,

palavras de amantes sem amor, gente que sofre

e a quem falta o ar quando faltam as palavras.

Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo

como se tivesse nascido o dia e uma brisa

encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir

para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul.

Quando volto para casa o teu nome vai comigo

e ao mesmo tempo espera-me já

numa casa construída com dois nomes,

como se tivesse duas frentes,

uma para a montanha e outra para o mar.

Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu,

espreito então pelas janelas de onde

se vêem coisas que nunca antes tinha visto,

coisas que adivinhava mas que não sabia,

coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar.

Nessas alturas o meu nome é o teu olhar,

e os meus olhos são justamente a pronúncia do

teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado,

um som pequeno como um roçagar de asas

dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala

e criam raízes fundas nas palavras vulgares

que os vulgares amantes engrandecem

quando falam de amor.

terça-feira, setembro 12, 2023

Habituar-me.

 Preciso habituar-me

a substituir-te

pelo vento,

que está em qualquer parte

e cuja direção

é igualmente passageira

e verídica. 


segunda-feira, setembro 11, 2023

Vertigens. Só queriam saber das vertigens.

"(...) Os lábios dele tocaram de leve nos lábios dela, como o pouso de mil borboletas brancas. Tomaram uma distância miúda, quase invisível, e se encostaram de novo, um vai e vem sereno embalou os dois aumentando aos poucos a vontade de demorar ali. As línguas se tocaram macias, se afastaram tímidas, se entregaram a uma brincadeira de dançar juntas, exploraram o desenho da boca, tocaram nos dentes perolados, venceram todas as distâncias, reconheceram texturas, tomaram gosto. Um molhando o outro com suas águas boas, um dentro do outro naquele primeiro beijo de parar o mundo. Os olhos fechados num escuro quente. As mãos tocando os cabelos desalinhados, agradando as faces avermelhadas pelo calor de dentro. É para coisas assim que nascemos. Quem para o tempo nesse sentir sai diferente. Muda. Conhece a força de existir. E depois do primeiro beijo, vieram outros. O corpo querendo chegar mais perto, se perder nos abraços. A mão encontrando a pele, conhecendo os relevos. As matas. As grutas. Um rio largo e farto, manso em seu fluxo, lavando tudo, fertilizando os dias, umedecendo o árido, enfrentando as quedas, as curvas, as tempestades. Confiante de um dia ser mar. O amor, quando nasce forte, tem pressa de ser eterno. Nem se dá conta de que é carne úmida. Os dois foram vivendo aquele desejo despreparado de limites, cada vez mais esquecidos das regras, dos outros, das satisfações exigidas. Só queriam saber das vertigens (...)."

quinta-feira, setembro 07, 2023

Fica mais um pouco!


"Como sair daqui?" Perguntas bem, amigo.

Diógenes diria "à catanada, vivamente",

Lichtenberg "à gargalhada", se o conheço.

Thomas Bernhard proporia "num rectângulo

de tábuas" e Machado que o caminho de saída

se descobre ao caminhar. Beckett é provável

que dissesse "rastejando".

Diderot aventaria

"pela rua do liceu", Tcheckov "pela viela

mais escura, à tua esquerda". Séneca diria,

muito sonso, "pelo passeio das Virtudes",

Vaneigem "pelo jardim das Belas-Artes".

Bashô responderia (e eu com ele) "é muito cedo,

fica mais um pouco, ainda há vinho na garrafa".

terça-feira, setembro 05, 2023

Cedo ao rastro.

 Cedo ao rastro de restos que

me tenta até ti

(pernas de nylon vazias

sapatos

desafogados)

segunda-feira, setembro 04, 2023

Desde sempre em mim.

Contente. Contente do instante 

Da ressurreição, das insônias heroicas 

Contente da assombrada canção 

Que no meu peito agora se entrelaça. 

Sabes? O fogo iluminou a casa. 

E sobre a claridade do capim 

Um expandir-se de asa, um trinado 


Uma garganta aguda, vitoriosa. 


Desde sempre em mim. Desde 

Sempre estiveste. Nas arcadas do tempo 

Nas ermas biografias, neste adro solar 

No meu mudo momento 


Desde sempre, amor, redescoberto em mim.




quinta-feira, agosto 31, 2023

Quero vivê-lo em cada vão momento.


De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento


E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

quarta-feira, agosto 30, 2023

Não sei amar de outra maneira.

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio

ou seta de cravos que propagam o fogo:

amo-te como se amam certas coisas obscuras,

secretamente, entre a sombra e a alma.


Amo-te como a planta que não floriu e tem

dentro de si, escondida, a luz das flores,

e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo

o denso aroma que subiu da terra.


Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,

amo-te directamente sem problemas nem orgulho:

amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,


a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,

tão perto que a tua mão no meu peito é minha,

tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.

quarta-feira, agosto 02, 2023

Que é minha.

 A vestir-te 

o corpo 

nu 


ou a sede 

que é minha 


ou a seda 

que és tu




terça-feira, agosto 01, 2023

Desordenadamente.

 Foi contigo que aprendi a amar

 desordenadamente





quarta-feira, julho 26, 2023

Humor e inteligência.


"(...) Sabia que a beleza e a graça femininas perdem força e brilho com a convivência, mas que a

astúcia, o humor e a inteligência são atributos que se transformam em beleza e

nunca enjoam os homens inteligentes, ao contrário das bonecas de porcelana sem

cérebro que eles desejam como objectos de prazer e que depois se substituem

por outras, mais jovens e mais belas (...)."

terça-feira, julho 25, 2023

Vazio.


"Ensina-nos, (...), a rezar este vazio. 

O vazio transportado por um medo que não conhecíamos e que parece agora um inquilino da nossa alma.

O vazio dos espaços em isolamento.

O vazio da vida que se faz sentir como suspensa.

O vazio das horas que quem está na solidão conta de maneira diferente.

O vazio das incertezas que se acumulam, e das quais ainda não falámos.

O vazio dos olhos daqueles que veem sofrer e os olhos dos muitos que sofrem sem que nós os vejamos.

O vazio de tudo aquilo que, de um instante para o outro, é adiado.

O vazio daquela mulher idosa que passa o dia inteiro com o rosto contra o vidro da janela.

O vazio do refugiado que vê a sua esperança negada por um carimbo.

O vazio do jovem diante de um futuro que escapa cada vez mais, como um pensamento distante.

O vazio que nos chega como um aviso de despejo da vida autêntica.

O vazio dos encontros e das conversas de que agora precisaríamos.

O vazio que os amigos notam.

O vazio dos risos.

O vazio de todos os abraços não dados.

O vazio da proximidade proibida.

O vazio no qual não te vemos."


segunda-feira, julho 24, 2023

É como a paz que se sente depois de fazer amor.

 (…) Acredito num mistério superior que não permite que os corações se apaguem. Se está na Escócia e eu nos Midlands e não a posso abraçar e agarrar, resta-me no entanto algo de si. A minha alma palpita docemente consigo na pequena chama de Pentecostes e é como a paz que se sente depois de fazer amor. Há uma chama que nasce quando se faz amor. Até as flores nascem do amor entre o sol e a terra, E tudo isto é um problema delicado que exige paciência e uma longa espera.

sexta-feira, julho 21, 2023

Hoje.

Se alguma vez houve um dia de primavera tão perfeito,

tão animado por uma brisa morna intermitente


que te fez querer abrir

todas as janelas de casa


e destrancar a porta da gaiola do canário,

na verdade, arrancar a pequena porta do seu batente,


um dia em que os frescos caminhos de tijoleira

e o jardim repleto de túlipas


pareciam tão incrustados na luz solar

que até te apeteceu dar com


um martelo no pisa-papéis de vidro

que está na mesa ao fundo da sala de estar,


libertando os habitantes

da sua casinha coberta de neve


para que assim pudessem sair,

de mãos dadas e franzindo os olhos


ao ver esta abóboda maior de azul e branco,

então, hoje é mesmo esse tipo de dia.



quarta-feira, julho 19, 2023

Olhos fechados.

 As filas e filas de maçãs movem-se, abanam, tremem nas prateleiras. Cada maçã está centrada numa cavidade especial, entalhada nas prateleiras de madeira que percorrem as paredes deste pequeno armazém.

Treme, treme, abana, abana.

(…)

As maçãs dão cambalhotas; vão surgindo pedúnculos dos lados de baixo, há cálices voltados para os lados, depois para trás, depois para cima, e depois para baixo. O ritmo das pancadas varia: pára; abranda; recomeça; interrompe-se de novo.

Os joelhos de Agnes estão erguidos, abertos na oblíqua como asas de borboleta. Os pés, ainda dentro das botas, repousam na prateleira oposta; as mãos estão apoiadas na parede caiada de branco. As suas costas endireitam-se e arqueiam-se, aparentemente por iniciativa própria, e da garganta saem-lhe sons baixos idênticos a rugidos. É apanhada de surpresa por o seu corpo se comportar desta maneira.

(…)

No estreito espaço entre ela e a prateleira oposta encontra-se o o professor de Latim. Está de pé dentro do pálido V das suas pernas. Tem os olhos fechados; os dedos agarrados à curva das suas costas. Foram as mãos dele que lhe desataram os laços no pescoço, que lhe puxaram para baixo a camisa, que trouxeram à luz os seus seios – e como eles pareceram espantados e brancos, assim ao ar daquele modo, em pleno dia, em frente de outrem; os seus olhos castanho-rosados retribuíram o olhar, surpreendidos. Todavia, foram as mãos dela que levantaram as saias, que a impulsionaram para aquela prateleira, que puxaram para si o corpo do professor de Latim. Tu, disseram-lhe as mãos, eu escolhi-te.

E agora existe isto – este encaixe. É inteiramente diferente de tudo o que sentiu antes. Faz-lhe lembrar uma mão a calçar uma luva, um cordeiro, molhado, a deslizar para fora de uma ovelha, um machado a rachar um tronco, uma chave a rodar uma fechadura oleada. Como é possível, pensa, olhando para a cara do professor. que uma coisa encaixe tão bem, com tal precisão, com uma tal sensação de exactidão?

As maçãs, afastando-se dela de um lado e de outro, volteiam e entrechocam-se nas suas concavidades.



terça-feira, julho 18, 2023

Tenho trabalho a fazer pela presença eterna do hoje.

Quero viver. Tenho trabalho a fazer nesta geografia vulcânica.

Dos tempos de Ló ao apocalipse de Hiroxima,

a devastação nunca foi outra coisa que não devastação.

Quero viver aqui como se em mim

ardesse sempre a ânsia do desconhecido.

Talvez o «agora» esteja muito mais distante. Talvez o «amanhã»

esteja mais próximo e o «amanhã» se encontre já no passado.

Todavia agarro a mão do «agora» para percorrer a margem da História

e não o tempo que descreve círculos como o caos das cabras‑montesas.

Sobreviverei eu à velocidade electrónica do amanhã?

Sobreviverei eu ao atraso da minha caravana do deserto?

Tenho trabalho a fazer pelo além‑mundo, como se amanhã não fosse vivo.

Tenho trabalho a fazer pela presença eterna do hoje.

Por isso ouço, pouco a pouco, a formiga no meu coração:

Ajuda‑me a suportar a minha tenacidade.

segunda-feira, julho 17, 2023

O amor não é tão simples como acordar.

 Adágio

 

À noite, quando já é tarde e os ramos

batem contra as janelas,

podes pensar que o amor é apenas uma questão

 

de passar do cavalo próprio

para o burro de outra pessoa,

mas é um pouco mais complicado do que isso.

 

É mais como trocar os dois pássaros

que podem estar escondidos naquele arbusto

pelo que não tens na mão.

 

Um homem sábio disse uma vez que o amor

era como forçar um cavalo a beber

mas depois toda a gente deixou de pensar nele como sábio.

 

Sejamos claros sobre isto.

O amor não é tão simples como acordar

virado do avesso e envergando as roupas do imperador.

 

Não, é mais parecido à maneira como a caneta

se sente depois de ter derrotado a espada.

É um pouco como o tostão poupado ou a prevenção em vez do remédio

 

Tu olhas para mim através do halo da última vela

e dizes que o amor é um mal que nunca

traz a bonança, uma tempestade que não sopra nada de bom,

 

mas eu estou aqui para te lembrar,

enquanto as nossas sombras tremem nas paredes,

que o amor é o pássaro madrugador que mais vale chegar tarde do que nunca.

 


quinta-feira, julho 13, 2023

O amor é o pássaro madrugador.

 Tu olhas para mim

através do halo da última vela

e dizes que o amor é um mal que nunca

traz a bonança, uma tempestade que não sopra nada de bom,


mas eu estou aqui para te lembrar,

enquanto as nossas sombras tremem nas paredes,

que o amor é o pássaro madrugador que mais vale chegar tarde do que nunca.


terça-feira, julho 11, 2023

A chuva desistiu de apagar o nosso amor embaciado.

 Ainda estranho o lugar quando acordamos

no revés de já ser outro

o dia

porque espelhas o tempo à janela é

à face de teu rosto que decido

o que vestir.

O vento que molda a praia

é de todas as bandeiras:

há um silêncio talhado à substância do quarto

(o chão de madeira matiza o

frio que força uma fresta)

podia apostar comigo: hoje

de madrugada

um cão ladrou na voz do galo.

O meu sobrenome segue-te

pela véspera da casa

(fim de emissão no ecrã

cálices

meio hasteados) a

chuva desistiu de apagar o nosso amor embaciado

pelo lado negativo.

Tornas à cama e abres

aquele romance de sempre

(o descanso existe

noutro cansaço).

sexta-feira, junho 30, 2023

Vive-se com a esperança de se chegar a ser uma recordação.

 Saber morrer custa a vida.


Antes de percorrer o meu caminho eu era o meu caminho.


Vive-se com a esperança de se chegar a ser uma recordação.


Tudo é como os rios, obra das pendentes.


A flor que tens nas mãos nasceu hoje e já tem a tua idade.


As quimeras vêm sozinhas e vão acompanhadas.


Há dores que perderam a memória e não se recordam porque são dores.

sexta-feira, junho 23, 2023

Imagina.

Imagina que te escrevo em voz baixa. Falamos sempre baixo quando queremos que acreditem nas nossas palavras. E tudo o que aqui escrevo é verdade.

Escrevemos porque ninguém ouve. Escrevo-te porque estás longe, numa cidade onde o nevoeiro roubou o ar ao sol e as pessoas pensam mais do que sentem. Se ao menos estivesses aqui ao meu lado, passava-te a mão pela nuca, puxava-te ligeiramente os caracóis e então tu fechavas os olhos de prazer e eu sentia-te próximo. Mas isso agora não é possível. A tecnologia pôs ao nosso serviço meios fabulosos para podermos estar sempre em contacto. Posso telefonar-te para o telemóvel sempre que quiser e o tiveres ligado — o que é quase sempre, sem contar com o tempo que estás em reunião, a dar um seminário ou a voar de uma cidade para a outra —, posso enviar-te mensagens escritas ou posso ainda escrever-te e-mails. Se o desejar, consigo arranjar forma de entrar em contacto contigo duas ou três vezes por dia. E claro, como todas as raparigas do mundo que esperam por um rapaz, posso esperar que me telefones ou que um dia voltes. Mas tu não estás aqui; não vives no mesmo país e não respiras o mesmo ar. O teu sono é embalado noutras cidades: Londres, Paris, Madrid, Barcelona. A Europa fica-te bem, sabias? E o teu trabalho também, porque és um cidadão do mundo, ou pelo menos estás convencido que és.

Vou-te confessar uma coisa. Se for honesta comigo mesma, só um ou dois foram verdadeiramente importantes; os outros, que pensei amar, por quem chorei a distância e sofri na pele a ausência, foram apenas pretextos para viajar e aperfeiçoar línguas. 

sexta-feira, junho 16, 2023

Os teus olhos.

"(...)Todos os olhos que me tentam prender se perdem no meu vazio, porque em nenhum vejo os teus olhos.

Será que não amamos os outros pelo que são, mas por tudo o que nos fazem sentir? Sempre quis ser a pessoa que fui quando estava contigo, tu sabias, sem saber, exaltar o meu lado melhor, mais profundo, mais elevado, mais optimista (...)"

quinta-feira, junho 15, 2023

Ausência.

 A única verdadeira tristeza está na ausência do desejo. 

segunda-feira, junho 12, 2023

O poema nasce dentro das tuas mãos.

O poema nasce

dentro das tuas mãos

sempre que repousa

nelas o teu rosto.


Não é uma canção:

são os lábios apenas

quando despertaram

antes da palavra.


Arquitectura última

que depois se eleva,

porque tu a criaste

para sempre livre.


Talvez uma ave

seja a sua forma

ao passar o voo

que continua o poema.

quarta-feira, junho 07, 2023

Dói-me.

 dói-me o teu nome longínquo.

dói-me o irresistível artesanato da distância

terça-feira, junho 06, 2023

Projectam-se partos na memória.

Nada acontece em vão,

no verão, na vertigem,

na rendida voragem.


Tudo se precipita quando o outono range,

ruge, rola, confunde,

sob o bafo das bruxas.


Em vão nada se faz, nada se queima.

Projectam-se partos na memória.



segunda-feira, junho 05, 2023

Em cada um de nós.

 Em cada um de nós há um segredo,

uma paisagem interior

com planícies invioláveis,

vales de silêncio e

paraísos secretos




quarta-feira, maio 31, 2023

Basta-me que o teu olhar me encontre.

Toca-me, conjuga um verbo que conheças

no presente do indicativo, soletra-o na segunda pessoa

do singular ao meu ouvido, dá-me qualquer coisa

que me pareça eterno

Basta-me que o teu olhar me encontre




segunda-feira, maio 22, 2023

Prometo que não choro.

 desenha com a ponta dos teus dedos

as fronteiras exactas do meu rosto

as rugas    os sinais     a cicatriz que ficou da infância

o lento sulco das lâminas onde no peito

se enterra o mistério do amor


e diz-me

o que de mim amaste noutros corpos

noutras camas       noutra pele


prometo que não choro mas repete

as palavras um dia minhas que sem querer

misturaste nas tuas e levaste

com as chaves de casa e os documentos do carro

– e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio

na primeira madrugada em que me esqueceste

quinta-feira, maio 18, 2023

segunda-feira, maio 15, 2023

Ferida.

Entre a saliva e os sonhos há sempre

uma ferida de que não conseguimos regressar.

quinta-feira, maio 11, 2023

Para ser sentido.

Apetece-me escrever um poema.  

Um poema fechado dentro si 

para ser compreendido 

apenas 

pelos passarinhos que chilreiam lá fora 

sobre as três árvores 

da minha única paisagem; 

para ser sentido 

na canção da seiva 

circulante no verde das ervas

 do caminho áspero da encosta; 

e pelo brilho do sol 

e pelo carácter íntegro dos homens.  


quarta-feira, maio 10, 2023

Por muito que a ame.

"(...) Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado

A flor que se abrir é já um pouco de ti, e a flor que te estendo,

Mesmo que a recuses

Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,

A colherei.(...)"

terça-feira, maio 09, 2023

Da tua porta aberta.

 Precisava falar-te ao ouvido

De manter sobre a rodilha do silêncio

A escrita.

Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.

Da indigência. E da fadiga.

Da tua sombra sobre a minha sombra

E da tua casa

E do chão.



segunda-feira, maio 08, 2023

Gosto tanto dela que não sei como a desejar.

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.



terça-feira, maio 02, 2023

Para que a tua ausência não embacie o vidro da memória.

Volta até mim no silêncio da noite a tua voz que eu amo, e as tuas palavras que eu não esqueço. Volta até mim para que a tua ausência não embacie o vidro da memória, nem o transforme no espelho baço dos meus olhos. Volta com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário vestido com a mortalha da névoa; e traz contigo a maré da manhã com que todos os náufragos sonharam.




quinta-feira, abril 27, 2023

Bebi entre os teus flancos a loucura.

Tentei fugir da mancha mais escura

que existe no teu corpo, e desisti.

Era pior que a morte o que antevi:

era a dor de ficar sem sepultura.


Bebi entre os teus flancos a loucura

de não poder viver longe de ti:

és a sombra da casa onde nasci,

és a noite que à noite me procura.


Só por dentro de ti há corredores

e em quartos interiores o cheiro a fruta

que veste de frescura a escuridão...


Só por dentro de ti rebentam flores.

Só por dentro de ti a noite escuta

o que me sai, sem voz, do coração.

São muitos e longos.

Não consigo agora passar por todos os dias sem me lembrar de ti. São muitos e longos. Alguns intermináveis até.

Muitos anos passaram. 

Guardo na memória tudo o que vivemos. A pessoa mais especial que encontrei na vida 

Não mais me apaixonei. Nem o coração se desmanchou por e para outro alguém. Viverás sempre no nosso pretérito e no meu coração. 



quarta-feira, abril 26, 2023

Foi a primeira vez que te amei e amei.

"Foi assim que aconteceu

Eu viajei naquele olhar

De tão certo que era meu

Tão certo que queria ficar


E o meu corpo amanheceu

Lembrou-se que queria amar

Foi assim que aconteceu

Assim que aconteceu

Assim que aconteceu

Foi assim(...)"

 

quarta-feira, abril 19, 2023

Há sempre uma ferida de que não conseguimos regressar.

Entre a saliva e os sonhos há sempre

uma ferida de que não conseguimos

regressar.


E uma noite a vida

começa a doer muito

e os espelhos donde as almas partiram

agarram-nos pelos ombros e murmuram

como são terríveis os olhos do amor

quando acordam vazios.


terça-feira, abril 11, 2023

Como se o corpo perdesse a memória.

 Os primeiros beijos

 ingénuos, comedidos, cautelosos,

 os corpos indecentemente jovens, 

desastrados como caranguejos, 

a cozinha suja, o pequeno-almoço na cama, 

cigarros, cerveja, pão turco e tulipas turcas. 


 Passaram mil madrugadas, 

o amor jaz na ausência, 

como se o coração perdesse a paciência, 

como se o corpo perdesse a memória, 

as flores secas, as folhas secas, as raízes secas,

  devolveu-me ao mar como se fosse um peixe, 

um peixe ferido, um peixe incapaz de sobreviver, 

pequenos homicídios sem consequências. 


 Sobrevivi, 

sei que me desmereço mas não sou o que pareço, 

agora sou toda janelas, 

da torre a sentinela, do sino a capela, da rua a cadela, 

sou o morro mais alto da favela, 

ainda quero entender o mundo, 

ainda quero conhecer o fundo,

 quero com desespero, 

quero mas não sei o que quero, 

mais feitio que defeito, 

mais feito que derrota, 

mais gaivota que proveito,

 mais ignota que perfeito,

 mais pé-direito que respeito, 

e podem chamar-me pedante,

 mas as pessoas que sabem o que querem 

nunca querem nada de interessante



quarta-feira, abril 05, 2023

Perché la vita, senza te, non può essere perfetta.



"Cammineremo per 'sta strada e non sarò mai stanco

Fino a che il tempo porterà sui tuoi capelli il bianco"

terça-feira, abril 04, 2023

Antes a vida.

 Antes este coração engatilhado

Que este charco de murmúrios

segunda-feira, março 27, 2023

Amar-te desde sempre é mais que uma forma de estar vivo.

Se olhasses para mim verias nos meus olhos

a lancinante expressão da solidão

e a esperança sem qualquer indecisão

de que é possível o teu nome ser maior

que o céu que me vela o silêncio da noite.


Amar-te desde sempre é mais que uma forma de estar vivo

e dar expressão à divindade que trago comigo

desde que atravessei a fronteira

que entre o mar e o mar estabelece

a luz mais verdadeira.


O mais sequer é tempestade que neste coração sangra,

ou dúvida subtil ou estremecimento,

sentindo o alvoroço em que te sinto

apenas peço que sejas tu o assombro

e me devolvas enfim a harmonia.


quarta-feira, março 22, 2023

Chegámos tarde a nós.

Chegámos tarde a nós.

Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.

Tu eras um longo muro de cimento areado

em que deixava a carne inteira

a caminho do encontro.


A primavera ficava-nos sempre

à esquerda, e tu cada vez mais

dentro de mim até não sentir nada,

até estares já do outro lado.

Para trás, a cova matinal na almofada,

o postal entre a leitura suspensa,

o número a chamar de um fantasma.


Se apagar as marcas de onde pousaste

a cabeça sobre a minha vida,

se ganhar novo espaço para o fôlego,

faz-me só um favor:

nunca mais me reconheças.


terça-feira, março 21, 2023

Somos bem melhores no fingimento.


De amor sabem falar os poetas. Nós, o comum, desajeitados e menos sensíveis, dizemos alguma coisa com os olhos, os gestos, mas sempre a pensar que ficamos aquém, perdidos nos temores que imaginamos. Somos bem melhores no fingimento.
Vem. Deita-te. Apaga a luz. Cerra os olhos. Não fales. Imagina a quem queres que empreste as palavras que te vou sussurrar.
Lembras-te da esplanada, aquela tarde, o acaso do nosso encontro, quando ao sentar-te tropeçaste e eu te segurei para que não caísses? Depois combinámos jantar, ambos inocentes, descuidados, sorrindo de tudo, adivinhando os subentendidos, felizes com aquela alegria ingénua de crianças. E o primeiro beijo, lembras-te?
Não respondas. Ouve. Ainda não era amor, só a excitação do início, o aperceber da descoberta. A iminência do destino que, soldando-nos, de dois faria um.
O que a seguir aconteceu é vivência de poucos, romance de paixão e loucuras, do espanto das confissões, da partilha dos segredos que envergonhavam e agora nos unem. A suavidade das mãos que se procuram quando nos deitamos. A harmonia dos sorrisos trocados. Certos olhares. O que os dedos aprenderam a soletrar na pele. A ternura dos momentos em que, compreendendo e perdoando, celebramos o reencontro.
É amor, sim, minha querida. Amor que se alimenta de pequeninas e grandes coisas, destes sussurros, dos beijos na escuridão da nossa fantasia, do modo como nos encaramos quando o dia começa.

Aquieta-te. Espera que eu saia e oiças fechar a porta.

quinta-feira, março 16, 2023

Apertando-te nos braços.

 Três fósforos… um a um acesos na noite

O primeiro para ver o teu rosto inteiro

O segundo para ver os teus olhos

O terceiro para ver a tua boca


E toda a escuridão para recordar tudo isso

Apertando-te nos braços



quarta-feira, março 15, 2023

Só nós não podemos ser.

 Não saberei nunca

dizer adeus

Afinal,

só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,

só nós não podemos ser

Talvez o amor,

neste tempo,

seja ainda cedo

Não é este sossego

que eu queria,

este exílio de tudo,

esta solidão de todos

Agora

não resta de mim

o que seja meu

e quando tento

o magro invento de um sonho

todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra

alcança o mundo,

eu sei

Ainda assim,

escrevo



terça-feira, março 14, 2023

Este silêncio é que não.


"Se pudesse zangava-se. Sacudia o saco da tristeza. Se pudesse Isolava-se. Passava a ser um nobre eremita sem ralações intimas nem ambições. Qualquer ambição sugere-lhe logo a preguiça e a certeza da derrota merecida. Se pudesse tomava-se irascível, sarcástico e impossível de aturar. (...). Queria passar a sofrer da solidão de não querer. 

Este silêncio é que não." 



segunda-feira, março 13, 2023

Sempre.

 

Sempre me encerram os olhos de não ver, mas não às escuras,

Sempre me deitaram as lágrimas para correr e não para me deleitar nesse verso morto que é o teu corpo, antes de adormecer.

Sempre me prostrei perante a evidência da vida e me encantei com as facilidades inúmeras dos sonhos que inventei.

Sempre confundi amor com paixão e a vida com a emoção.

Sempre me apercebi das contingências, ignorei as vigências. 

Sempre vivi nessa latência, para quem o amor é construção e nunca, mas nunca, falta da cor do sangue da vida e no coração.

quinta-feira, março 09, 2023

dá-me tudo o que te falta!

dá-me

dá-me algo mais que silêncio ou doçura

algo que tenhas e não saibas

não quero dádivas raras

dá-me uma pedra

não fiques imóvel fitando-me

como se quisesses dizer

que há muitas coisas mudas

ocultas no que se diz

dá-me algo lento e fino

como uma faca nas costas

e se nada tens para dar-me

dá-me tudo o que te falta!

quarta-feira, março 08, 2023

Entre tremor e temor.

Não quero o primeiro beijo:

basta-me

o instante antes do beijo.

Quero-me

corpo ante o abismo,

terra no rasgão do sismo.

O lábio ardendo

entre tremor e temor,

o escurecer da luz

no desaguar dos corpos:

o amor

não tem depois.

Quero o vulcão

que na terra não toca:

o beijo antes de ser boca.


quinta-feira, fevereiro 23, 2023

O pequeno pastor já não vem.

 tudo no teu sorriso diz

que só te falta um pretexto

para seres feliz


uma querela talvez chegasse

ou um pequeno pastor que passasse

na estrada, com suas ovelhas


um riso, um pormenor

que no momento se pousasse

e o tornasse melhor


eu

vou pensando em coisas velhas

-sem sombra de desdém!-

na vida

naquele lampejo fugace

que o teu sorriso já não tem


e que é do passado

porque a nossa grande sabedoria

não soube tratar ente tão delicado


e declina, o dia


o pequeno pastor já não vem




domingo, fevereiro 19, 2023

Parabéns Tinhosa.

Foi a primeira vez, em 16 anos, que não te escrevi no dia do teu aniversário. Foi especialmente difícil. Estou geograficamente perto e emocionalmente “a descoberto”. Apesar de não privarmos nem de mantermos qualquer tipo de contacto, lembro algumas vezes de ti e o teu aniversário é uma data que fácil e alegremente recordo e aproveito para te interpelar directamente. Nunca esperei resposta, apesar de secretamente a desejar, mas depois de bloqueios de números e nas redes sociais, tenho que respeitar e evitar todo e qualquer tipo de contacto. 

Obviamente que me custa muito esquecer. Quanto mais pretendemos esquecer-nos de alguém, mais esse alguém regressa na memória, nesta paradoxo do esquecimento que contraria todo o nosso esforço.

Dito isto, desejo-te sempre as maiores felicidades, para finalmente adormecer  depois de uma noite de insónia.






sexta-feira, fevereiro 17, 2023

Imaginações.

Devorei há dias um livro que me chegou por acaso, que narra o encontro de duas pessoas, que foram outrora um casal e se encontram passados dez anos de se terem separado.

Fiquei a imaginar-nos então (já passaram bem mais de 10 anos) a percorrer juntos a terreola que nos uniu e a cidade que nos separou,  as memórias, que seriam apenas e tão só isso mesmo, mas certamente com versões do (nosso) passado certamente incompatíveis, a desenrolarem-se em diferentes espaços, tal como no livro,  tornam-se numa espécie de topografia da intimidade que no pretérito nos uniu.

Seria igualmente óptimo vaguear pela Praia Dourada, tu de biquíni azul provocante, eu queimado pelo sono ao sol, tal como antes fizemos, tal como os personagens percorreram  Lisboa, falando do mundo, das idiossincrasias do tempo e das outras pessoas, para evitarmos falar de nós.


quinta-feira, fevereiro 16, 2023

Amar-te desde sempre é mais que uma forma de estar vivo.

Se olhasses para mim verias nos meus olhos

a lancinante expressão da solidão

e a esperança sem qualquer indecisão

de que é possível o teu nome ser maior

que o céu que me vela o silêncio da noite.


Amar-te desde sempre é mais que uma forma de estar vivo

e dar expressão à divindade que trago comigo

desde que atravessei a fronteira

que entre o mar e o mar estabelece

a luz mais verdadeira.


O mais sequer é tempestade que neste coração sangra,

ou dúvida subtil ou estremecimento,

sentindo o alvoroço em que te sinto

apenas peço que sejas tu o assombro

e me devolvas enfim a harmonia.

quarta-feira, fevereiro 15, 2023

Onde mora o coração.

 ainda que um último navio

viesse pousar-me nas mãos

toda a solidão

das ilhas


e na brevíssima noite

dos mortos

rompesse límpida

a última nuvem

da saudade


ainda assim


só contigo subiria

toda a neve dos dias

até se esgotar

o vermelho


essa casa

onde mora o coração


segunda-feira, fevereiro 06, 2023

Em lugar seguro.


e vinha a luz
e guardava-te

e eu guardava-te
também

em lugares mais seguros
que fotografias
ou poemas

sexta-feira, fevereiro 03, 2023

Sempre tu.

(...) e tu, sempre tu num prodígio de luz a enlouquecer-me as sombras

quinta-feira, fevereiro 02, 2023

Amor como oportunidade.

Das buscas mais infrutíferas do Homem é mesmo essa necessidade de encontrar o Amor. Pessoalmente, custa-me bem mais compreendê-lo. Ou custava. Afinal o Amor está onde não o definimos, onde não o tentamos dissecar e explicar. 
O amor não está. 
O amor é.

Li em qualquer lado que o Amor é mesmo uma questão de oportunidade. 
Mas como foi possível perder essa oportunidade?
Sim, essa pergunta invadiu-me longos dias neste inverno da alma.
Não descobri absolutamente nada. Só me entretive com desculpas.
Talvez seja melhor assim.

Não adianta nada conhecer a pessoa certa antes ou depois do momento certo.
O amor é uma questão de oportunidade.

Amar é sempre uma oportunidade.
Para sermos outra vez.

terça-feira, janeiro 31, 2023

Nada mais nos resta.

Que nome te resta se eu já aí não estou para te chamar

quinta-feira, janeiro 26, 2023

Continuo a pensar em ti — o que é ridículo.

 

A SEPARAÇÃO


Continuo a pensar em ti — o que é ridículo.

Estes anos entre nós como um mar.

Qualquer dignidade que tenha vindo com a idade 

faria o meu lápis estacar no papel.

O leitor estava aberto; tu pediste os Stones; 

Ouvimo-los, tomámos café a escaldar, conversámos, 

As pesadas cortinas guardavam-nos de uma noite feroz.


Continuei a pensar nos teus olhos, nas tuas mãos.

 Não há qualquer razão para isso, absolutamente nenhuma.


Tu dirias que eu não posso ser o que eu não sou,

no entanto, eu não posso ser o que sou. 


Onde é que isso nos deixa? O que podemos fazer? 

O silêncio depois de Jagger era como um manto

com que te teria coberto — só o vento

restou, e o som dos ponteiros enquanto sorvias,

segurando a caneca verde com as duas mãos.

Não olhes assim para cima tão de repente!

Como é difícil não te observar.

Tínhamos chegado à fase de não falar

e de não nos preocuparmos, e isso

era quase a felicidade. Então, mais tarde

quando te deitaste sobre o cotovelo na carpete

eu não consegui sentir nada além daquela faca

de dor dizendo-me o que era

e eu não consigo falar-te disso, nem uma palavra.

quarta-feira, janeiro 25, 2023

Seremos.

 Já somos o esquecimento que seremos.





segunda-feira, janeiro 23, 2023

Não me arrependo.

Não me arrependo das horas que perdi a esperar-te quando ainda havia a esperança...a esperança que havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que não me arrependo...

quarta-feira, janeiro 04, 2023

Como é possível?

Como é possível que a terra e o mar e as estrelas se concentrem numa só gota perfumada que os meus lábios transformam em framboesa?

terça-feira, janeiro 03, 2023

Um instante.

"(...)Eu dizia-te que chorar é lembrarmo-nos de nós um instante (...)"